sexta-feira, 16 de julho de 2010

Individualismo contra sociedade do vício

Vivemos numa época de corrupção e relaxamento. O que não quer dizer, necessariamente, que vivemos numa época má. Se considerarmos que os juízos “bom” e “mau” estão, inexoravelmente, ligados a pontos de vista, compreenderemos que tais julgamentos se subscrevem ao universo da moral, ou seja, ao plano metafísico e, consequentemente, à flexibilidade das leis que regem tal “universo”. Contudo, tais leis não são apresentadas em seu “caráter flexível”, mas, pelo contrário, são geralmente representadas como regras intransponíveis sob as quais o indivíduo deve submeter-se. Assim sendo, o indivíduo plenamente consciente, fruto legítimo das épocas de corrupção e relaxamento, acaba brotando apenas esporadicamente nos solos propícios para a arvore da tirania. Faz parte da natureza desses indivíduos (ou melhor, se configura como seu instinto dominante) a faculdade de explorar sem culpa os semi-indivíduos, ou seja, os que, pela pobreza mesma do “solo” de onde brotaram, se sentem oprimidos pelas condições da existência a manter, de forma inconsciente, o funcionamento das engrenagens da máquina que os subjuga e escraviza. A “consciência” é, portanto, o “x” da questão. Como está claro, ela não “humaniza” o indivíduo, pois se assim agisse os “indivíduos conscientes” cessariam de explorar seus semelhantes “inconscientes”. Ao contrário, a consciência adormece os instintos de respeito e submissão às regras que não têm como objetivo imediato o benefício do próprio indivíduo, bem como acorda nele os instintos de revolta e insurgência contra as regras que fundamentam a sua condição de subserviência. No entanto, esse efeito da consciência só pode ser observado nos casos em que o indivíduo pode se desenvolver de forma plena, o que é coisa rara nas sociedades modernas, fraturadas pela “divisão” social do trabalho (entenda-se: de um lado a minoria que não precisa trabalhar e usufrui de todas as benesses do atual sistema e de outro as grandes hordas de escravos que carregam todo peso da produção nas costas, peso que impede a reflexão sobre sua condição) que -obviamente- favorece quem dispõe de tempo. No estado de separação que domina nossa sociedade a “consciência” funciona como um entorpecente em ambos os lados da cisão. Na mentalidade dominante ela anestesia o altruísmo e na mentalidade dominada ela anestesia a insurgência, apresentando-se, portanto, neste caso, como uma consciência de segunda ordem, ou mesmo uma “inconsciência”. Juntamente por que naqueles a consciência assume o caráter tirânico próprio do imperialismo capitalista de nosso tempo, enquanto nestes se desenvolve de forma reversa, pois é fruto de “números” e não indivíduos. Tal mecanismo de desenvolvimento desigual da consciência colabora para manutenção da hierarquia social e é estimulado pelas classes detentoras dos meios de controle e seleção via espetáculo, processo bem descrito nas teses de Guy Debord. A sociedade do espetáculo -releitura contemporânea do “pão e circo” do império romano- é a manutenção estratégica do entorpecimento coletivo para fins de dominação permanente de um lado e submissão passiva de outro. A cisão característica do mundo proletarizado é internalizada num fenômeno psicológico típico de nosso tempo: a alienação do indivíduo pelo fundamentalismo do consumo. Predomina, portanto, um tipo de consciência viciada incapaz de livrar-se do ciclo entre trabalho desapropriado e tentativa de “[re]apropriação” via consumo. Cabe aos indivíduos do meio (classes que se encontram nos “bolsões de ar” da cisão, ou seja, que dispõe de algum tempo para reflexão) criar, “por uma nova educação sobre si”, espaços cada vez maiores onde a lógica do consumismo possa ser quebrada. Esse esforço reflexivo é a única tarefa verdadeiramente digna à intelectualidade de nosso tempo: fazer de si uma “zona autônoma temporária”, uma fissura por onde possa escorrer livremente o líquido corrosivo do devir. Essa tarefa é para raros, somente àqueles que já não mais interessa uma “tomada de poder”, mas a destruição de toda forma de poder. E tal destruição, antes de qualquer coisa, deve ser feita dentro de si.

Reflexão de uma tarde generosa


A máxima de S. Augustinho “a memória é o presente do passado, a esperança é o presente do futuro e a visão é o presente do presente” pode -logicamente- ser associada a uma continuação do pensamento exposto da máxima aristotélica “só existem três tempos: o presente do passado, o presente do futuro e o presente do presente”. Nesses termos, podemos deduzir que a lógica que coordena tal pensamento reputa ao tempo presente o poder de organização dos outros tempos (passado e futuro), outorgando, portanto, ao indivíduo o peso incomensurável da responsabilidade por sua existência. Tal lógica é a força motriz que organiza todo pensamento do sacerdote, a saber: o pensamento que quer incutir no indivíduo (via moral) a responsabilidade por sua própria punição. Desta forma, a grande “dádiva” do “tempo presente” que se esconde por traz da interpretação aristotélica-augustiniana é a culpa. Todo indivíduo que pretende colaborar na tarefa de criação de um tempo verdadeiramente livre deve primeiro, como um verme, escavar o entulho putrefato de séculos de alienação pela psicologia do sacerdote em busca de luz e ar puro. Vencida essa barreira de lama, fezes e poeira é preciso um bom banho desinfetante para livrar-se do odor e da sujeira que um longo período sob os escombros de palavras como “culpa”, “punição”, “dádiva”, etc., impregnaram em sua pele. Só então, com nariz, olhos, boca e ouvidos “limpos” poderá ver e sentir novamente a verdadeira generosidade da existência e a abundância luminosa da irresponsabilidade e esquecimento imoralistas.